A Peugeot vê na sua bola de cristal um futuro risonho para a versão de 3 portas do 208. A ideia foi lançá-lo num segmento de mercado que aposta forte no «status» e no «sex-appeal», onde já moram os irreverentes Audi A1 e Alfa Romeo Mito. Os motores menos potentes a gasolina poderão ser um bom chamariz para quem procura um primeiro carro cheio de estilo.

Das linhas gaulesas que ostentam o famoso leão, eis que surge um novo automóvel digno de ser apresentado de uma forma isolada. O Peugeot 208 de 3 portas é inteiramente novo, diferente, e não esconde ter como mote principal lutar de igual para igual com os utilitários de “status” e com muito estilo.

A estética consegue ser muito apelativa e distanciar-se um pouco do 5 portas graças a alguns detalhes específicos como são, por exemplo, as linhas cromadas que se prolongam a partir da porta lateral, passam por baixo do vidro traseiro e terminam junto ao farolim num “S” que marca a diferença. Sem ser de uma vaidade presunçosa, é capaz de uma retórica incontornável, tal o extenso rol de virtudes e capacidades que traz. Mas, beleza à parte, importa saber aquilo que os olhos não vêem à priori, ou seja, se de facto este novo 208 de 3 portas merece os elogios que se têm ouvido. Impunha-se, pois, um confronto com outros dois modelos de linhas apelativas oriundos de duas casas com tradição, precisamente, o Alfa Romeo Mito e o Audi A1.

O 208 traz o motor 1.2 VTi de três cilindros e 82 cv e vem vestido em alto nível com traje “Allure”. O Alfa Romeo Mito é impulsionado pelos 85 cv do bloco Twinair, e surge nestas páginas com a única fatiota disponível, a Progression. Já o irresistível sedutor Audi A1 é aqui movido pelos 85 cv do 1.2 TFSI (a unidade fotografada não corresponde à versão ensaiada).

Contidos q.b.
Apresentações e considerandos à parte, passemos àquilo que mais curiosidade suscita depois de ter optado pela estética: o habitáculo. Abrindo a porta do Alfa Romeo, a primeira nota positiva é atribuída às linhas do tablier, mas depois de alguns minutos no seu interior percebemos a qualidade menos boa dos plásticos, ainda que a montagem seja de bom nível. Os espaços da arrumação também não abundam e os bancos, não sendo desportivos, são demasiado planos. Mas sentimo-nos bem e confortavelmente instalados. Pegando na fita métrica comprovamos a ideia de que este Alfa Romeo proporciona, com alguma facilidade, o transporte de dois adultos no banco de trás, ainda que o espaço não seja de todo generoso. A bagageira com 270 litros está na média do segmento, mas o acesso é estreito e o piso muito rebaixado.

O alemão é o mais sóbrio e bem construído do trio. O Audi consegue suplantar os dois “latinos” e o acréscimo de qualidade é evidente, por exemplo, no forro do tejadilho em tecido ou no plástico que forra as portas. O tablier tem detalhes de outros Audi mas não é propriamente inspirado em termos de design, ainda que seja suficientemente jovem e moderno. No espaço interior, o A1 é o mais acanhado. O espaço para as pernas dos ocupantes do banco traseiro é reduzido e permite o transporte de apenas dois passageiros. Aberta a bagageira, o Audi repete o valor do Alfa Romeo, mas com um melhor acesso e uma amplitude de ação superior.

O 208 será, talvez, o mais moderno e com mais pormenores tecnológicos, principalmente na versão Allure, reforçada pela presença do ecrã tátil, dos apontamentos em cromado e dos bancos desportivos de série. Vence na versatilidade, com espaços de arrumação muito amplos, no espaço para ocupantes atrás, e na bagageira, onde os 285 litros dão, de facto, a noção de estarmos perante uma mala mais espaçosa.

Motores pequeninos
Depois dos cálculos para avaliar qual o mais espaçoso, partimos para a avaliação da “locomoção”, seja em cidade seja fora dela. Do motor de 900 cc do Mito esperava-se melhor. Tem o comando da caixa de velocidades elevado e uma posição de condução confortável, mas é na inércia até às 2000 rpm que o Alfa desilude. É preciso uma pressão adicional no acelerador para que arranque. Curiosamente, desde que se passe das 2000 rpm quase que podemos passar imediatamente para sexta e deixá-lo rolar, ao sabor da rotação, sem sobressaltos ou solavancos.

O 208 e o A1 têm ótima genica na etapa inicial do regime e o Peugeot só destoa pelo facto de a caixa de velocidades ser um pouco áspera e ruidosa e não garantir a condução mais harmoniosa. O A1 é fluído, muito regular, e tem uma caixa de velocidades suave e precisa. A condução em cidade do modelo alemão sustenta-se ainda num sistema “start-stop” de funcionamento praticamente inaudível, ao contrário do Mito que funciona sempre muito bem, mas é ruidoso.

O Alfa conta com o precioso auxílio do Hill Holder e o Peugeot dos sensores de estacionamento traseiros, um opcional contabilizado na unidade ensaiada. No conforto, o modelo francês engana. O pisar suave, característico dos carros franceses passou-se para o lado alemão. O eixo traseiro do 208 é muito seco e deixa passar alguma trepidação para o habitáculo, especialmente em mau piso. O A1, com jantes de 16 polegadas (na unidade que ensaiámos) e pneus de perfil mais elevado, acaba por ser o mais confortável e robusto, e o que garante o rolar mais uniforme, seja em piso bom ou em piso degradado. No Mito, o pisar parece ser suave, de início, mas o pior é que assim que nos deparamos com algum obstáculo (buraco, lomba, calçada). Aí, a suspensão é lenta a reagir e “durinha” para os ocupantes.

Já numa estrada de curvas são os três competentes. O Mito é o mais ágil e divertido de conduzir e conta com a ajuda do diferencial Q2 para ser sempre muito certo em curva deixando rodar a traseira na altura precisa. A única ausência que se sente é de potência. Os 85 cv do motor bicilíndrico só conseguem ser competitivos com o modo “Dynamic” do DNA ativado. O A1, sem ser tão interativo e tão envolvente, é desportivo q.b. e até o motor 1.2 TFSi de 85 cv se presta a uma condução mais “badalada”. É um motor linear e rápido a acelerar como comprovam os 10,8 segundos medidos na aceleração dos 0 aos 100 km/h. O 208 não deixa de ser divertido de conduzir com uma frente incisiva e uma traseira ágil, mas o motor 1.2 limita-o neste particular. Para se tirar algum proveito é preciso mantê-lo acima das 5000 rpm, o que acaba por manchar os consumos e aumentar o ruído a bordo.

Outro patamar onde o Peugeot se destaca é no da economia. Para além de ser o mais poupado, é ainda o mais barato e o que oferece a melhor relação preço/equipamento. Enquanto no Audi e no Alfa é preciso andar a juntar os sensores disto ou os sensores daquilo, os LED diurnos, o cruise control, ou até o sistema de navegação... O 208 traz tudo e de série, uma excelente vantagem que só precisa de ganhar imagem e amadurecer. O A1 é o mais caro e o mais despido e a grande vantagem são os quatro anos de garantia ou 80 mil km propostos pela Audi mais a imagem de marca.

O Mito é um automóvel de paixão. Apesar de ser o mais barato de todos os Alfa, é mais caro que o Peugeot. Vale-lhe os 1500 euros de desconto e a oferta do Pack Sport com jantes de 16” e o sistema Blue&Me.

 


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