A Alfa Romeo não teve dúvidas, quando apresentou o Giulia: este é um modelo para fazer guerra aos melhores premium do segmento. O Autohoje reuniu os principais suspeitos para um comparativo onde a dúvida é saber se, desta vez, a marca italiana consegue estar à altura das suas pretensões. Equipados com motores Diesel potentes, veremos qual será o veredicto.

Há muitos anos que no Autohoje não comparávamos um Alfa Romeo com as berlinas premium do segmento médio. A marca italiana esteve demasiado tempo ausente desta luta e agora voltou com o Giulia, carregado de aspirações e sem medo da comparação com os melhores. São os próprios líderes da marca que o assumem, quando dizem que o Giulia tem a emoção que os rivais da Alemanha não têm. Entre emoções e razões, Autohoje decidiu avançar com o comparativo que vai descodificar o que vale o novo modelo italiano face aos melhores: Audi A4, Mercedes-Benz Classe C e Jaguar XE. Ficou de fora a BMW, que foi convidada a participar, mas que declinou, por não ter um 320d disponível para as datas em que tivemos todos os outros modelos juntos.

A apreciação estética não costuma fazer parte dos comparativos Autohoje, mas desta vez a exceção justifica-se pela ênfase que a Alfa Romeo põe no assunto. Claro que os símbolos da marca e a enorme grelha triangular lhe dão identidade instantânea, mas será que, ignorando esses pontos, o modelo tem mesmo linhas com ADN Alfa Romeo? A resposta é mais difícil do que nos outros, que têm personalidade forte, com ou sem emblemas à vista e têm também uma montagem dos painéis exteriores mais aprimorada.

A nossa tabela de pontuação de comparativos é das mais transparentes, rigorosas e objetivas da imprensa especializada. Já premiou muitos automóveis, mas também já colocou a nu as insuficiências de muitos mais. Uma leitura, ponto a ponto, desta tabela servirá para tirar todas as dúvidas acerca das nossas opiniões sobre os quatro automóveis em confronto, refletidas nas pontuações que lhes atribuímos. Aqui, interessa-nos discutir os méritos relativos de cada um, sabendo que uma parte da avaliação depende da configuração que cada construtor fez da unidade que nos colocou à disposição para ensaio. Como sabe quem já alguma vez andou pelos configuradores dos sites oficiais das marcas a “construir” o seu carro de sonho, esta pode ser uma tarefa com tanto de interessante como de confusa, sobretudo quando se chega à parte dos pacotes de equipamento e de segurança. Nas unidades ensaiadas, o XE tinha mais dispositivos de segurança ativa que os outros e equivalia-se ao C220d em termos do resto do equipamento, deixando o A4 ligeiramente atrás e o Giulia a uma distância maior. Em contrapartida, o Alfa Romeo tem o preço mais baixo, 50 205 euros (incluindo um desconto de lançamento de 3000 euros), enquanto os outros três ficam mais perto dos 60 000 euros.

Malas e passageiros

Olhando para os valores anunciados de capacidade de carga, rapidamente se conclui que a marcação é cerrada entre os vários construtores. Apenas a Jaguar avança com um valor ligeiramente abaixo dos restantes, mas, ainda assim, não lhe falta espaço para carga. Já o acesso é razoável em todos, tendo em conta que se tratam de carroçarias de três volumes e quatro portas. O Classe C é o único que não rebate as costas do banco traseiro. Passando para o habitáculo e para os lugares traseiros, as nossas medições mostraram que o Classe C tem menos espaço em comprimento que os outros, que dividem as vitórias entre altura, comprimento e largura. Uma coisa é certa, apesar do tamanho, em nenhuma destas berlinas é possível transportar com conforto três passageiros no banco traseiro. O lugar do meio é alto, estreito e com um túnel central a meio, comum aos três.

A questão da qualidade é das mais sensíveis, especialmente quando se fala de um Alfa Romeo. Analisados um a um, os materiais do interior estão em bom nível, com muitos plásticos macios, outros revestidos a credíveis imitações de pele e com alguns acabamentos de texturas sofisticadas. A montagem também não levanta grandes dúvidas, restando apenas alguns plásticos pior acabados na consola e na moldura do monitor central. Na verdade, o desenho até acaba por fazer parecer tudo melhor do que é, exatamente ao contrário do que se passa no XE, que tem um desenho interior muito pouco inspirado. Mas basta entrar no Classe C e no A4 para perceber que os alemães não brincam com este tema. O cuidado dos acabamentos, a seleção de materiais e o desenho de todas as peças está a um nível claramente superior.

Onde a Alfa Romeo fez um bom trabalho foi na definição da posição de condução, com o volante (que tem o botão para arrancar o motor) muito bem posicionado face aos pedais e à alavanca da caixa. As regulações, nesta unidade, são manuais, mas muito amplas, para servir a todas as estaturas. Neste aspeto, a marca italiana não fica a dever nada aos seus rivais, mesmo se haverá sempre quem prefira estar ao volante de um ou de outro. Na nossa opinião, todas as posições de condução são muito boas, mesmo não sendo iguais.

Motores em marcha

Com quatro motores Diesel em funcionamento, é curioso ouvir cada um deles e perceber o trabalho acústico de cada marca. A Audi destaca-se claramente, com o 2.0 TDI a emitir um som musculado e grave, que quase não se percebe ser um Diesel. Não é só uma questão de insonorização, é também de estudo das vibrações internas e da sua propagação. Na Mercedes-Benz, o motor de 2143cc é já um “senador”, mas o trabalho de insonorização do Classe C disfarça isso muito bem, nunca chegando a incomodar, apesar de ser mais audível do que o do A4. A Jaguar e o seu Ingenium vêm atrás em termos de volume de som, mas consegue ser melhor que o motor (também com 2143 cc) da Alfa Romeo. Este é claramente o mais ruidoso do lote e o que transmite mais vibrações. É também o único que surge aqui acoplado a uma caixa manual de seis velocidades, o A4 tem uma de dupla embraiagem e os outros dois têm caixas automáticas com conversor de binário. Mais uma razão para o preço mais baixo do Giulia, mas um prejuízo em pontos quando falamos de facilidade de condução, até porque esta caixa manual da Alfa Romeo não é especialmente rápida nem suave. A S Tronic do A4 é a que tem a dupla personalidade mais vincada, permitindo “brincar” com as patilhas de maneira mais satisfatória, enquanto a caixa da Jaguar é quase tão boa nessa ação, como suave a andar devagar, tarefa que a caixa da Mercedes-Benz também faz com enorme distinção. O Classe C continua a ser um exemplo de conforto e serenidade, mesmo quando se guia muito depressa, está sempre do lado do condutor, ajuda-o, nunca o assusta, o que dá imensa confiança. Mas o Giulia surpreende pelo conforto da suspensão em mau piso, situação em que os pneus mais baixos do C220d mostram as suas limitações. O A4 S-Line é o mais duro e o XE não fica longe.

Dinâmicas de exceção

O XE é o mais divertido de guiar deste grupo, o que deixa desligar o ESP e gozar um pouco a tração traseira, sempre com reações previsíveis e proporcionais. No C220d, o ESP nunca se desliga por completo, mas dá uma margem de diversão muito razoável, que chega para pôr um sorriso nos lábios à maioria dos condutores. O A4, o único tração dianteira neste comparativo, tem uma precisão excelente da frente e a traseira deixa-se provocar ao gosto do momento. E o Giulia? Tem tração atrás, mas não desliga o ESP, que entra em ação de forma discreta e eficaz (por vezes nem acende a luz respetiva) mas que está lá sempre, não deixando explorar o chassis ao limite. É pena, porque se percebe que há aqui eficácia e diversão em potencial.

Resta analisar os resultados da nossa sessão de medições, que mostrou uma supremacia do Audi e Mercedes-Benz nas acelerações e, logicamente, nas recuperações o Giulia fica um pouco atrás, devido à caixa manual. Na travagem, o Alfa Romeo também precisou de mais distância para se imobilizar e, nos consumos, o mais poupado foi o C220d, com o Giulia no segundo grupo.

O resultado final mostra que o Giulia ainda está longe dos melhores premium do segmento e dá conta também que o Mercedes-Benz C220d continua a ser uma escolha acertada, mas com pouca vantagem para o Audi A4. Em resumo, a ordem tradicional continua a vigorar.

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