O salão de Frankfurt começou mal, com o anúncio da ausência de dez marcas importantes. Mas depois de o visitar, conclui que continua a ser o melhor salão do mundo.

Ver alguns pavilhões que costumavam estar cheios de novos modelos, agora ocupados com fornecedores e as suas mais variadas peças, entre os quais os oriundos da China, que ocupavam muitas das áreas disponíveis, foi um choque, em mais uma reportagem que fiz do Salão de Frankfurt. Em quase trinta anos de deslocações ao maior salão automóvel do mundo nunca vi nada assim. Mas se a falta de emblemas como os da Peugeot, Nissan ou Volvo se fez notar, tal como o “downsizing” da presença de outros, como o da Ford, a verdade é que o “show” montado pelas marcas da casa quase fez esquecer esta edição “low cost” do IAA.

As grandes tendências foram as esperadas, com a preocupação da eletrificação, leia-se a produção de mais modelos híbridos e elétricos, à cabeça. Assisti a muitas conferências de imprensa e em todas elas os mais altos responsáveis das marcas insistiam nessa tecla. Particularmente na Alemanha, em que o caso do Dieselgate teve um eco enorme na imprensa, levando os políticos a surfar a onda e passando para a opinião pública uma má imagem da indústria automóvel, há agora uma urgência dos construtores em mostrar que estão realmente a trabalhar para a utopia que os políticos vendem: a cidade sem poluição.

Para os que percebem que uma cidade só com carros elétricos, significa mais produção de energia elétrica fora das cidades, em maioria a partir do petróleo e do carvão (com a consequente subida de emissões poluentes globais) talvez o mais interessante tenham sido as insinuações contra a Tesla. É óbvio que ninguém se arrisca a falar diretamente deste fenómeno de popularidade que é a marca Tesla, mas as referências são claras, quando se ouvem os líderes da BMW ou do grupo VW a puxar pelos galões, dizendo que há muito se preocupam com os carros elétricos, ao contrário de outras companhias “novas e pequenas.” Para mim, parece-me óbvio que os construtores alemães foram ultrapassados na curva… e por fora! Qualquer um deles, ou todos, poderiam já ter formado uma imagem de especialistas de carros elétricos, mas as administrações foram demasiado conservadoras, acabando surpreendidas pelo fenómeno Tesla. Agora bem podem dizer que sabem mais, que têm melhor tecnologia, mas o facto é que ainda estão a anunciar para os próximos anos, carros concorrentes dos modelos que a Tesla já tem no mercado há algum tempo.

Curiosamente, a Tesla foi uma das marcas ausentes do salão de Frankfurt, não terá sido por falta de espaço ou de orçamento. Como sempre, agrada-me uma boa teoria da conspiração, que sustenta terem sido os construtores alemães a “boicotar” a presença da Tesla. Imagine-se o que seria a apresentação em Frankfurt do novo Model 3? Capas de todas as revistas, primeiras páginas de todos os jornais, abertura de todas as peças televisivas, para não falar da inundação das redes sociais. Ofuscaria por completo o esforço milionário das marcas da casa. Mas enfim, é só uma teoria…

Felizmente, nem tudo foram eletrões, neste salão de Frankfurt. Os “concept-cars” parece terem recuperado terreno, estando vários expostos e alguns realmente espetaculares. Em quase todos os casos, prefiguram modelos elétricos, mas muitos poderiam ser movidos por qualquer outro tipo de motorização, que isso em nada diminuiria o seu apelo. E para quem julgava que o último ciclo de supercarros tinha acabado, a AMG mostrou que não, com o seu fabuloso Project One, um carro de estrada que usa a motorização híbrida do F1 de Lewis Hamilton. Desde o Ferrari F50 que não se via nada assim e desde o SLR Uhlenhaut Coupé que a Mercedes-Benz não fazia algo parecido. Em 1955, este derivado dos W196 de competição era de longe o carro mais rápido do mundo, atingindo os 290 km/h. Mas nunca seria produzido, ao contrário do Project One, cuja série limitada já deve estar toda vendida, no momento em que escrevo estas linhas. Um até vem para um comprador português de sessenta anos.

Portugal esteve muito bem representado, pelo novo produto da Autoeuropa, o T-Roc que a VW diz ser, agora sim, o seu concorrente direto do Qashqai, depois de a agressiva política de preços da Nissan ter deixado o Tiguan sem argumentos, a esse nível. Entre a forte imagem da marca e o estilo apelativo, só destoa um habitáculo com qualidade abaixo da média. Mas tinha que se poupar em algum lado. Seja como for, o T-Roc é o mais importante modelo alguma vez produzido no nosso país.

No final da reportagem, é inevitável fazer o balanço e eleger o meu preferido do salão. Depois de muito ponderar, acabei por concluir aquilo que não esperava: para mim, o melhor do salão foi o Honda Urban EV, um “concept-car” de um citadino elétrico, que os japoneses já confirmaram vir a entrar em produção daqui a dois anos. Foi feito a pensar na europa, dizem eles, e para mim mostra aquilo que eu penso há muito tempo. Um automóvel elétrico não tem que ser esquisito como um Leaf, ou futurista como um Tesla. Basta ser bonito e não lhe fica mal piscar um olho ao passado, mas de uma forma tão subtil que só os mais velhos de entre nós podem identificar esse lado nostálgico. O melhor do salão.

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